cardume do agua preta

Faz tanto tempo o carnaval, esse tempo de quaresma nunca senti tão forte. Elaborações do sensível, cuidados com a estrutura, organizações do palpável, composições do visível e do invisível, que somos e permeamos.

Faz tempo mas não poderia deixar de trazer aqui a minha ressonância do carnaval, sobretudo no meu trabalho intenso de vida polipoética, espiritual, carnavalesca-fluvial que é essa intensidade chamada Bloco do Água Preta.

Esse ano, carregando um raminho sagrado, materializei um pouco mais a potência de terreiro vivo que é a saída do bloco pra mim, benzendo as pessoas e abrindo os caminhos, que sustentei durante as horas de amor radical pelas ruas da cidade, correndo com e pelo rio escondido. O que se esconde de nós e podemos lembrar e fazer ressurgir, nessa vida urbana que teima em nos apartar da natureza selvagem e simples, engraçada e poética, livre e leve, da visão do fluxo de criar nossos caminhos no mundo, cultivando e celebrando os encontros de amor e saúde vital para sustentar e aumentar os sentidos de viver juntos na terra. Sim, é enorme. E o carnaval nos faz lembrar loucamente da alegria de só ser, junto. De cantar e dançar, junto. De brincar pular rir chorar correr suar receber acolher, ás vezes só com um olhar generoso no meio da bagunça. Nossa várzea saboreada com o gosto peculiar amoroso de cada encontro e inspiração compartilhada. Ins-piração.

Outro dia escrevi um texto que virou textão de amor de carnaval fluvial, trago aqui uns pedaços, um início, sem fim:

Água Preta, tentáculos da subjetividade aquática-brincante humana que concentra e se espalha, se esparrama pela cidade no after do carnaval de São Paulo. Uma dose de sensibilidades que se infiltram mutuamente, nessa massa molhada de ar quente, na certeza do corpo presente pulsante. Somos água. Somos natureza.

70% de água do planeta vaza, extravasa na várzea do Água Preta

Terráqueos, vocês são água e nadam nesse rio da vida na Terra. Peixe-planta, ancestralidade aquática, gente-serpente sagrada, mata, várzea, terra molhada.

Foi 8M, dia de las mujeres. Todas elas cantaram nos nossos corpos. Nossas ancestrais, nossas anciãs, as mães as tias as filhas, as amigas, as irmãs, as avós, as tataravós em nós, que somos que sejamos que sereiamos. Carregamos nas veias todo esse rio de gente e semente, esse rio cheio de pirarucu, tucunaré, turiassu, tagipuru, tremembé, caeté, cotoxó, guiará, caiowaá, mandacaru, guarani, suruí, caiapó, pequi, andiroba, guariroba, mangaba, açaí, sapoti, tamanduateí, esse eu-rio que a gente lava e leva bem aqui no nosso Ori.

Do chuá pro chuí

Eu me perdi

Do chuí pro chuá

Vou me encontrar, vou te encontrar e vamos sustentar no banzeiro, a encruzilhada do rio, e sentir-sacar a corrente que precisa passar, deixar passar devagar pra gente atravessar. Na hora boa. A hora

Olha o banzeiro

Vamo cruzar

No cardume do Água Preta a gente vai atravessar!

Agradeço a todos de coração verdadeiro, presença apurada, mente livre e criadora, que estiveram juntos nesse cardume do água preta 2025, ano 13!

E não vamos esquecer: somos os sonhos ativos que nutrem o nosso planeta terra, planeta água, planeta vida.

Seguimos juntos, reflorestando o sonho e a mata ciliar!

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